Simplesmente Scolari

Pode-se não gostar do estilo, pode-se até odiar ou mesmo amar, mas ninguém lhe fica indiferente: Luiz Felipe Scolari entrou como um vulcão em erupção no futebol português, arrastando consigo todos aqueles com relevância no fenómeno futebolístico nacional. Uns aliaram-se, outros afastaram-se e houve quem também servi-se como "bode expiatório" de algumas incidências ocorridas antes da chegada do seleccionador brasileiro.

Evitando cair no mais puro minimalismo opinativo, a verdade é Scolari surgiu como que uma "lufada de ar fresco" para o futebol português, ao nível da sua selecção. Um dos seus maiores méritos foi sem dúvida unir uma inteira nação em torno da sua equipa nacional, criando um espírito patriota, diria que, inigualável em qualquer outro país europeu. Os resultados bastante positivos ajudaram, como é óbvio, à assimilação por parte do povo português daquilo que foi o "espírito Scolari", tendo como epicentro de notoriedade a enorme manifestação de apoio por parte dos portugueses, aquando da colocação das bandeiras em cada janela visível. Mesmo os mais cépticos se renderam ao movimento, rejubilando em cada vitória lusa.
Dentro de campo, o espírito de grupo sempre se evidenciou bastante forte, fruto da capacidade de liderança do "sargentão" Scolari. Por muito notório que um jogador fosse, todos sabia que teriam que respeitar as regras estabelecidas para poderem estar presentes na selecção nacional.
Ainda assim, nem tudo foram "rosas" na passagem de Scolari pela selecção. Existem muitos espinhos facilmente identificáveis, e alguns ainda sem uma explicação cabal.
Comecemos pelo caso mais mediático de todos: Vítor Baía. Não querendo de forma alguma por em causa a qualidade de Ricardo, o facto é que o jogador com mais títulos do mundo não foi chamado para o Euro 2004, em Portugal, por mera questão técnica. E digo isto porque ninguém da Federação Portuguesa de Futebol confirmou a existência de um qualquer tipo de processo relacionado com o ex-guardião do Futebol Clube do Porto e Barcelona. Esta opção nunca foi realmente esclarecida.
De seguida, a teimosia de Scolari valeu-lhe uma estreia amarga no Europeu de 2004 (derrota por 2-1 frente à Grécia). Em pleno Estádio do Dragão, Scolari deixou os campeões europeus em título Ricardo Carvalho, Deco e Maniche de fora, pagando caro por essa opção. No jogo seguinte rectificou, vencendo a Rússia por 2-0, com um golo marcado por Maniche. O mesmo Maniche que dias mais tarde marcou um dos mais espectaculares golos do Euro frente à Holanda. Coincidências?
O estilo pouco ortodoxo (quase jocoso) com que Scolari aborda as conferências de imprensa tem de ser levado também em conta aqui. Ainda assim, e é justo que se diga, a culpa aqui deve ser repartida por Scolari e pelos jornalistas nacionais. Cenas como aquela em que Scolari revela que renova com a selecção nacional colocando uma aliança no dedo foi para mim ridículo. Pior que isso só mesmo a reacção de alguns (felizmente não todos) jornalistas que se levantaram e aplaudiram tamanha encenação. Gosto de recordar esse acontecimento como apenas um pesadelo distante, e na realidade é assim que o vejo. A conferência de imprensa que antecedeu o jogo frente à Suíça foi o culminar de uma relação indiscritível entre Scolari e a imprensa nacional.
Já o incidente com Dragutinovic (Sérvia) ficará, para todos os que o presenciaram, como uma recordação bastante agressiva de Scolari para com toda a Europa. Não só o nome de Scolari ficou mal na fotografia. O nome de Portugal foi também posto em causa derivado a uma atitude no mínimo (e sendo simpático no termo) irreflectida do seleccionador nacional. Pior só mesmo a justificação para tal acto, tentando fazer-se passar de vítima quando todos viram que na realidade Scolari ficou fora de si e agrediu (se calhar esta é uma palavra forte para o toque suave na face do jogador sérivo) Dragutinovic.
Por fim, e sabendo que muito mais poderia ser dito, é importante realçar que o timming do anúncio da saída da selecção, por parte de Scolari, não foi de facto o mais adequado. No meio de uma prova importantíssima para Portugal, Scolari poderia ter aguardado um pouco mais para divulgar a todos as suas intenções.
Quanto ao futuro da selecção nacional ninguém o poderá afiançar, mas o que é certo é que Luiz FelipeScolari marcou (e poderá ainda arrebatar um título) uma era no futebol português. Uma marca que dificilmente alguém conseguirá acompanhar num futuro próximo. Cabe aos responsáveis federativos portugueses acautelarem esse mesmo futuro.

Os senhores dos anéis

A Final dos playoffs da NBA começa esta madrugada (em Portugal), juntando as duas equipas mais vitoriosas, de sempre, da Liga: os Bostons Celtics e os Los Angeles Lakers.
Os Boston Celtics, a equipa com mais títulos da competição, 16, chega a esta final depois de ter sido também a equipa com melhor registo da fase regular. 66 vitórias e apenas 16 derrotas mostram o poderío dos Celtics durante toda a fase regular. Sob a batuta de Doc Rivers, ex-treinador dos Orlando Magic, os Celtics mostraram desde cedo a sua supremacía. Logo desde o draft, ao conseguir juntar Kevin Garnett, Ray Allen, Paul Pierce e Rondo. Três all-stars e um jovem com muito talento, que deram à equipa de Boston a sua primeira final em 21 anos. Apesar de todo este domínio, os Celtics sentiram porém algumas difuldades nos playoff, para ultrapassar os Atlanta Hawks e os Cleveland Cavaliers, tendo as duas série sido superadas com um "suado" 4-3. Chegam à final, após derrotarem na final de conferência os Detroit Pistons.
Do outro lado surgem uns L.A. Lakers que durante a fase regular tiveram duas faces: uma antes da chegada de Pau Gasol, outra depois da chegada do poste espanhol. Antes de Gasol chegar à equipa californiana, os Lakers estavam a fazer uma época regular, com um recorde (coeficente de vitórias e derrotas durante a fase regular) bastante equilibrado. A chegada do espanhol veio transfigurar esta realidade, e os Lakers escalaram rápidamente até à liderança da sua conferência. Orientados por Phil Jackson, também conhecido como "Mestre Zen", os Lakers chegam à final da competição depois de alguns anos atribulados. A saída de Shaquille O`Neill deixou feridas no seio da equipa, que demoraram a cicatrizar. Kobe Bryant, líder da equipa e MVP da fase regular da NBA, demorou a perceber que a sua influência na equipa era muito mais do que os pontos que marcava ou as assistências que fazia. Quando percebeu que os seus companheiros viam nele um exemplo, Kobe começou a mostrar-se um jogador que, para além de jogar para as estatísticas, era também a "voz" do treinador dentro de campo. Esta mudança de atitude teve efeitos imediatos. Apoiado na qualidade de Lamar Odom, Derek Fisher, Pau Gasol e Vujacic, Kobe e companhia levaram de vencida Denver (4-0), Utah Jazz (4-2) e os ainda campeões San Antonio Spurs (4-1).
É chegado o tempo de decisões. Dois históricos lutam pelo tão desejado anel de campeão. A acompanhar a partir desta madrugada na SportTv (em Portugal).

"Folclore" Portugal

As últimas horas têm sido caracterizadas pelo "bombardeamento" informativo informativo sobre a selecção portuguesa de futebol. Este triste espectáculo é ponto comum nas três principais estações televisivas nacionais (só escapa a RTP2), bem como da SportTv.
Ponto prévio: Obviamente que quando Portugal é apurado para uma competição tão prestigiante como o Campeonato da Europa, o acompanhamento da selecção deve ser feito de forma intensiva, mas não exaustiva.
Desde o início do estágio da selecção em Viseu que as estações televisivas quase invariávelmente abriam os telejornais com notícias do treino (!) da selecção, deixando para segundo plano alguns destaques nacionais como a crise nas pescas ou a esalada dos preços do petróleo. É grave quando isto acontece pois o nosso país está a passar por muitas dificuldades, e os "media" deveriam ter como foco central a divulgação do real estado de Portugal. O poder do desporto (em Portugal e praticamente por toda a Europa ocidental, o desporto-rei é o futebol) é cada vez mais evidente, numa sociedade cada vez mais assimétrica, a passar por graves privações. Está-se a dar um desmedido relevo a um desporto, a uma competição, a uma equipa que infelizmente não irá resolver os graves problemas do país. Poderá alegrar-nos um pouco mais, ou deixar-nos mais descontentes, mas os problemas vão continuar a existir. A célebre frase de Luís Filipe Vieira, presidente do Sport Lisboa e Benfica, proferida aquando o seu clube foi campeão nacional (2005) não trouxe os efeitos desejados: "Portugal precisa de um Benfica Campeão". Como vemos, pouco mudou desde então.
E de facto já não é a primeira vez que tal acontece. Já durante a realização do Euro 2004 se "encobriu" a saída de Durão Barroso do poder com a excelente prova que Portgal realizou. Isto é de facto gravíssimo.
Para além de tudo isto, o teor das informações, procuradas e veículadas, é também ele discutivel. Fazer cobertura de treinos, conferências de imprensa, sentir a pulsação à população em relação à selecção nacional são práticas normais e exigidas aos "media". Agora fazer notícias, e inclusive manchetes, de internacionais portugueses a falarem de possiveis transferencias em pleno estágio é de facto discutivel. É óbvio que aqui a "culpa" é repartida pelos jogadores, jornalistas e dirigentes da federação, que permitem que os jogadores abordem estes temas em pleno estágio. Se um estágio serve sobretudo para unir a equipa, a abordagem a estes temas diáriamente não me parece muito consensual.
O futebol é um conceito que tem sofrido sucessivas mutações ao longo da sua história. Desde um simples desporto colectivo a uma máquina gigantesca, criadora de astronómicas receitas financeiras. A paixão essa não se perdeu, mas extrapolar essa paixão da forma que se tem feito é algo que a meu vêr deve ser repensado.

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