João Moutinho pode mesmo sair

João Moutinho, capitão do Sporting, adorado pela massa adepta leonina, elogiado pela sua humildade e amor à camisola, reiterou, após o jogo frente ao Blackburn Rovers, a sua intenção de sair do clube de Alvalade.
Quando todos apontavam a Miguel Veloso o desejo de sair, surge esta declaração surpreendente do capitão leonino, visto que o mesmo nunca antes o havia demonstrado publicamente com tamanha veemência.
O mais difícil de prever, não será tanto quando e para onde sairá Moutinho, mas sim as reacções dos sócios e simpatizantes do Sporting. Ninguém esquece as demonstração públicas de repudio às declarações de Miguel Veloso, afirmando querer sair do Sporting e chegando mesmo a "pressionar" os dirigentes leoninos a baixar a sua cláusula de rescisão. Será que com João Moutinho a situação se repetirá?
É óbvio que Moutinho goza na comunidade leonina de um certa admiração, não só pelo jogador em si, mas principalmente pelo seu carácter e humildade. Sempre longe dos "holofotes da fama", Moutinho vem construindo uma carreira sólida. De Peseiro a Bento pouco mudou no quotidiano do capitão leonino, sendo utilizado na esmagadora maioria dos jogos que equipa efectuou. Nunca virando a cara à luta, Moutinho criou uma imagem de um jogador que jogava, não só pelo dinheiro, mas sobretudo pelo "amor à camisola".
E este parecia ser o ponto que o diferenciava dos demais. Desde muito cedo, Yannick Djálo, Miguel Veloso ou Bruno Pereirinha, todos contemporâneos de Moutinho nos júniores leoninos, demonstraram intenção de, mais tarde ou mais cedo, saírem do Sporting. Moutinho parecia ser o único a resistir...até ontem.
Não recriminando ninguém que tem como objectivo, legítimo, o melhor para a sua carreira, convém enunciar alguns aspectos, positivos e negativos, em que Moutinho deverá reflectir: Que estatuto irá alcançar em qualquer outro clube europeu? Será que irá ter o acompanhamento que tinha na Academia? Estará ciente de todos os problemas inerentes à mudança para um novo país, uma nova cultura, uma nova forma de vida? Que objectivos terá o seu novo clube, sendo que o Sporting é uma equipa com grandes probabilidades de conquistar títulos todos os anos?
Já li algures que se Moutinho trocar agora o Sporting pelo Everton correria o risco de se tornar o novo Hugo Viana português. Não acreditando muito neste cenário (pelas diferenças pessoais e profissionais entre ambos), Moutinho pode realmente sacrificar algumas vitórias, sempre importantes nas carreiras de qualquer jogador, por uma maior visibilidade mundial.
Ninguém põe em causa que a Primeira Liga Inglesa goza de um estatuto a que o nosso campeonato está a anos luz, mas, por exemplo, essa visibilidade de pouco serviu a Hugo Viana, que hoje deambula por várias equipas espanholas. Sempre tendo em mente as diferenças entre os jogadores em questão, e mesmo entre Newcastle e Everton, considero arriscada a saída, neste momento, de João Moutinho, seja para que clube for. Moutinho perderá a pré-época se sair agora, e irá sempre necessitar do dobro de tempo para se conseguir adaptar plenamente a uma nova realidade, clubística e cultural.

Estrangeiros inundam camadas jovens

O futebol português tem vindo a ser "inundado" por um cada vez maior volume de jogadores estrangeiros nas camadas jovens. Os números começam a roçar o ridículo, e é urgente pensar seriamente no rumo a tomar nos escalões mais jovens nacionais.
Tendo em conta a última temporada (2007/08), o campeonato de Júniores A contou na época passada com 88 jogadores estrangeiros* (apesar de ser endereçado um pedido formal ao Belenenses e ao Real Massamá, não me foi possível consultar os plantéis destas duas equipas). Este é um número assustador para a realidade do futebol português. O futuro do mesmo pode começar a ficar em perigo se esta tendência não se inverter rapidamente. O Benfica é o campeão dos estrangeiros, contabilizando 15 (!) jogadores estrangeiros no seu plantel de Júniores A. O Sporting com 8 e o Futebol Clube do Porto com 6 fecham o quadro dos "três grandes". Uma equipa em foco dentro desta realidade é também o Oeiras, com um total 8 estrangeiros.
Não querendo tomar partido por qualquer lado, a realidade é que o futebol nacional pode sofrer graves consequências da actual política de formação dos clubes portugueses. Os defensores da utilização de estrangeiros no plantel argumentam que o futebol actual é cada vez mais um negócio, e como tal o importante é conseguir capturar os melhores jogadores, para depois os trabalhar e no futuro vender, dando assim uma importante receita ao clube que o acolheu.
Ainda assim, existem casos flagrantes que demonstram que a adopção deste tipo de política pode trazer danos relevantes para o futuro do futebol português. Atentemos no caso inglês. A Liga Inglesa é sem dúvida uma das mais fortes ligas mundiais, como a última final da Liga dos Campeões (entre duas equipas inglesas) o atenta. Ainda assim, e apesar deste real poderio, as selecções inglesas encontram-se cada vez mais débeis, sendo o último fracasso da selecção inglesa na fase de apuramento para o Euro 2008 um belo exemplo disto mesmo. Esta crescente falta de qualidade dos jogadores ingleses levou mesmo à adopção de medidas por parte de quem estrutura o futebol jovem britânico, como é o caso da abolição da atribuição de qualquer troféu no final da época à equipa campeã, de forma a não pressionar de sobremaneira os jovens ingleses. É certo que o nosso futebol ainda não chegou a este estado, mas tendo em conta a actual conjectura pode de facto para lá caminhar.
O que é certo é que os clubes portugueses continuam a apostar neste tipo de estratégia, como atenta a contratação por parte do Sporting de Alexis Quintulen (Argentino), ou do Futebol Clube do Porto de Mayuka (Zâmbia).

* Fonte: ZeroZero

"Furacão Nadal"

Rafael Nadal bateu hoje o número um mundial, Roger Federer, igualando desta forma Bjorn Borg ao conquistar no mesmo ano o torneio de Roland Garros (França) e Wimbledon (Inglaterra). A final de hoje fica para a história como sendo a mais longa de sempre, tendo durado no seu total 4 horas e 48 minutos.
Nadal venceu Federer por 3-2 em "sets", factor que demonstra de forma cabal o equilíbrio vivido nesta partida. Depois de vencer as duas primeiros partidas (duplo 6-4), o tenista espanhol permitiu recuperação do suíço (duplo 7-6), que igualou o encontro. Foi preciso recorrer ao quinto "set", e aí Nadal foi mais forte, vencendo a partida com um parcial de 9-7. Com esta vitória, Nadal interrompe uma série de cinco vitórias consecutivas de Roger Federer em Wimbledon.
Na hora da vitória, Nadal mostrou-se bastante contente por ter "batido o melhor jogador da história". "Continua a ser o melhor, pois ganhou aqui cinco vezes", concluiu.
Já Federer mostrou-se rendido ao talento de Nadal, admitindo que nesta final o espanhol foi superior: "Tentei tudo, mas o Rafael mereceu esta vitória. Para o ano estarei de regresso".
Depois da vitória no Europeu de futebol, a Espanha tem mais um motivo para festejar. Este tem sido, sem dúvida, um verão bastante animado para as bandas de "nuestros hermanos".

Projecto Queiroz: Parte II

Findo o ciclo Scolari, a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) parece querer voltar às origens e contratar o mentor dos dois títulos mundiais de sub-20 conquistados por Portugal em 1989 e 1991.
Carlos Queiroz pode assim regressar à selecção nacional pela porta grande.
Ainda assim, esta escolha (como todas as decisões) não é consensual. É inteiramente verdade que Carlos Queiroz arquitectou aquela que foi conhecida como a "Geração de Ouro" do futebol português. Jogadores como Luís Figo, Rui Costa, Vitor Baía ou Paulo Sousa têm como ponto comum o nome de Queiroz, que os lançou para o "estrelato" internacional.
O ponte forte de Queiroz é sem dúvida este: conseguir envolver de forma efectiva todas as equipas nacionais, dos mais jovens aos AA. O "projecto Queiroz" foi o primeiro a pensar a realidade das selecções nacionais, e muitos analistas entendem que a saída do treinador português fez este processo regredir de forma significativa. É também verdade que uma das lacunas de Scolari durante a sua passagem por Portugal foi essa mesmo: de certa forma negligenciou o desenvolvimento das selecções mais jovens. Como resultado disso, é notória a crescente ausência das nossas selecções jovens em fases finais das competições internacionais, coisa que há bem pouco tempo atrás não acontecia. Convém aqui não confundir acompanhamento das selecções jovens com aposta em jovens jogadores portugueses. Scolari lançou inúmeros jovens na selecção das quinas, como Nani, Ronaldo, Raúl Meireles, João Moutinho ou Miguel Veloso. Agora, é também verdade que raramente Scolari abordava temas "extra selecção AA", o que demonstra uma certa ausência do "Sargentão" neste aspecto.
É aqui que Carlos Queiroz pode voltar a fazer a diferença. No planeamento do futuro do futebol nacional. Na estruturação do futebol português desde a sua base.
Ainda assim, nem tudo são aspectos positivos nesta provável escolha. Ao longo da sua carreira, Carlos Queiroz acumulou algumas experiência menos conseguídas, sempre que ocupou o cargo de treinador principal, nomeadamente no Sporting e no Real Madrid. Por diversos motivos, Queiroz não triunfou como treinador principal, factor esse muito relevante aqui. É certo que é Carlos Queiroz quem coordena e dirige os treinos do Manchester United, vencedor da Liga Inglesa e da Liga dos Campeões. Porém, um treinador é muito mais que um estratega do treino. É alguém que lida com a pressão de decidir, de preferência "rápido e bem". É alguém que, ao longo das competições onde está inserido, tem de saber adaptar-se às situações com que se depara. E aqui Scolari era um mestre.
Ainda assim, sou forçado a concordar com o comentador Luís Freitas Lobo: Portugal precisa de alguém que consiga (re)estruturar o seu futebol. Mais do que resultados imediatos, precisamos de precaver os resultados vindouros.
Com a saída de Scolari e a entrada de Queiroz, Portugal dará uma volta de 180º na sua política desportiva. Eu penso que é uma reforma necessária, tendo a FPF que reflectir bem sobre os prós e os contras desta decisão.

Benfica "arrisca" em Carlos Martins

Carlos Martins chegou à Luz (tal como o próprio Rui Costa o afirmou) com o papel de render o agora director desportivo do Benfica, Rui Costa. Não será difícil de classificar esta aposta de arriscada, a começar no valor da transferência, passando também pelo passado do próprio jogador.
O médio internacional português chega à Luz depois de uma época bastante positiva no Recreativo de Huelva (1ª Liga Espanhola), tendo marcado seis golos nos 31 jogos que efectuou. É um dado a ressalvar, isto se lembrarmos que nos referimos a uma equipa que lutou até ao fim do campeonato para se manter no principal escalão do futebol espanhol, uma das mais importantes ligas mundiais. Foi sem dúvida uma época que veio relançar a carreira de um jogador que nunca foi mais do que uma esperança do futebol nacional, misturando momentos de pura magia com outros bem menos exuberantes. Ainda assim conseguiu responder de forma cabal a todas as adversidades, e hoje regressa pela "porta grande" ao futebol português.
Tudo isto é verdade, mas o que não deixa de ser verdade também é que o Benfica gasta com Carlos Martins cerca de três milhões de euros, que nos dias de hoje, e atendendo à realidade financeira do futebol português, pode ser considerado um investimento forte num jogador. Ainda mais se esse mesmo jogador já deu no passado provas de ser inconstante e desportivamente pouco fiável.
Na memória fica a entrevista que Carlos Martins deu ao jornal "Record" em Dezembro último, onde afirmou que foi prejudicado no clube de Alvalade por "algumas pessoas", como o próprio afirmou. A forte reacção de Paulo Bento fez com que Martins se retratasse dessas afirmações, não apagando porém este triste episódio do seu historial.
É também sabido que Martins é um jogador com forte propensão a contrair lesões. Durante o tempo que passou em Alvalade, muitas foram as vezes que os responsáveis técnicos do Sporting se viram privados do médio devido ao mesmo se encontrar lesionado. Porém, é importante realçar que o próprio jogador já afirmou que em Espanha foi sujeito a um programa de emagracimento e controlo de peso que fez com que se sentisse bastante melhor a nível físico. E a verdade é que na última época participou em praticamente todas as partidas do "Recre".
Por todas estas razões, penso não ser totalmente descabida a ideia de classificar este investimento de arriscado. É óbvio que todas as contratações contêm em si um certo nível de risco e imprevisibilidade, mas neste caso esse nível é, no meu entender, elevado.
Rui Costa inicia agora os "dossiers" mais importantes tendo em vista a formação do plantel da próxima época. Os nomes de Pablo Aimar, Fabrizio Miccoli e Roberto Ayala são suficientemente fortes para deitar para um segundo plano jogadores como Balboa, Martins ou Ruben Amorim. Este será o mais importante teste da ainda curta carreira de Rui Costa como director desportivo do Benfica. O tempo dirá se esteve à altura da ocasião.

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