O jornalismo desportivo não é mais do que uma especialização do jornalismo geral. Este tipo de jornalismo tem como objectivo o tratamento de temas relacionados com desporto, sejam competições, clubes, jogadores e treinadores ou instituições desportivas.O desporto tem tido nos tempos mais próximos uma importância bastante significativa na nossa comunidade. O destaque dado ao desporto pelos media é bastante grande, e este tem tendência a aumentar. Se reparamos, de há algum tempo para cá surgiu um canal dedicado apenas e só ao desporto, a Sporttv, que já tem dois canais disponíveis, estando em estudo a abertura de mais um. É portanto visível a crescente importância do desporto na nossa cultura.
O futebol nos media
Segundo a agência de notícias “Lusa”, cerca de 88% dos programas mais vistos na RTP em 2007 eram jogos de futebol, tendo o pique de audiência sido atingido no jogo entre o Chelsea e o Futebol Clube do Porto, a contar para a Liga dos Campeões, tendo este jogo sido visto por cerca de 2,627 milhões de espectadores.
Um dos momentos mais importantes da história do desporto nacional foi a participação da selecção nacional de futebol no campeonato do mundo da modalidade, disputado na Alemanha em 2006. Durante esta competição foram superados todos os recordes de audiências televisivas. Segundo a Marktest, as notícias sobre o mundial de futebol ocuparam 40% dos jornais televisivos, tendo sido a SIC a televisão que mais notícias passou sobre o mundial de futebol, com um total 148 notícias, que tiveram uma duração total de 8 horas e 47 minutos, que corresponderam a 43,3% de todas as noticias veiculadas durante a realização do Mundial de futebol.
O futebol sobrepõe-se assim de forma clara às outras modalidades, sendo este mediatismo exacerbado estendido a todo o ano. A focagem a outro tipo de desportos, como o rugby ou o judo, apenas acontece quando estas modalidades estão em alta. Já o futebol, esse vende todo o ano, seja pelos bons como pelos maus motivos. Um interessado pelo futebol sente-se motivado a ver televisão, a ler uma notícia ou a ouvir na rádio uma qualquer notícia relacionada com o seu clube ou com a selecção nacional. Portugal é um país com uma cultura de futebol profundamente enraizada. Desde Eusébio a Cristiano Ronaldo, passando por Luís Figo e Rui Costa. Todas estas são figuras nacionais, rapidamente reconhecidos pela maioria da população portuguesa.
A nível clubístico, assiste-se nos media portugueses a uma estratificação clara em relação ao destaque dado aos diferentes clubes. Os denominados “três grandes” (Futebol Clube do Porto, Sporting Clube de Portugal e Sport Lisboa e Benfica) têm lugar cativo em qualquer noticiário desportivo. Esta é quase uma lei, derivado sobretudo às massas populacionais que estes clubes arrastam consigo. Segundo o livro “Futebol, Identidade e Media na Sociedade em Rede”, de todos aqueles que assumem ter preferência de um determinado clube, 49,9% são adeptos do Benfica. Segue-se o Porto com 23,2% e por último o Sporting com 21,9% de adeptos. Apenas 6% referiram ter uma preferência clubistica diferente.
Em suma, cada vez mais as notícias são consideradas um negócio, ou seja, são feitas para vender. Se o público-alvo tem estas características, os media actuam de forma a “saciar” os desejos desse mesmo público. Como em Portugal o desporto rei é o futebol, aposta-se mais nesta modalidade em detrimento das demais. De futebol toda a gente fala, todos têm opinião. Esta foi pelo menos a ideia transmitida por Paulo Pedrosa, jornalista da Sporttv, aquando da sua palestra sobre jornalismo desportivo, na Escola Superior de Educação de Portalegre.
Existe neutralidade no discurso desportivo?
A questão é antiga, gera em seu redor inúmeras discussões e não é exclusiva do jornalismo desportivo. É importante primeiro definir se o relato desportivo é (ou não) um género jornalístico, bem como definir as suas especificidades. A verdade é que aqui existe uma divergência notória de opiniões. Se há quem defenda que sim pode ser considerado um género jornalístico, há também quem inequivocamente diga que não. É então soberano saber os porquês desta divergência.
Do lado dos defensores de que o relato desportivo é um género desportivo temos Luís Sobral, director de desporto da TVI. Este afirma, sem rodeios, que para além de o relato desportivo ser um género jornalístico, este é também um dos mais complexos existentes. Tudo porque em "tempo real" o jornalista é obrigado a executar um exercício complexo de relatar o que acontece, de forma clara e sem se deixar levar pelas emoções que o próprio jogo propicia. Em suma não é permitida ao jornalista qualquer tipo de falha, de forma a não ser criticado por quem assiste à transmissão do seu relato. Segundo Luís Sobral, o jornalista deve ainda ser livre de criticar e de fazer valer a sua independência perante os factos observados.
Paulo Garcia, jornalista da SIC, partilha da opinião de Luís Sobral. O jornalista defende mesmo que deve existir uma ligação por parte do jornalista entre o rigor jornalístico e o espectáculo em si, de forma a transmitir ao público as emoções sentidas no próprio local da realização da prova/jogo. O narrador deve então durante o relato transmitir e “fazer sentir” aquilo que se está a passar, fazendo-o sempre com "um sorriso nos lábios".
Existem porém opiniões negativas em relação ao tema da discussão. Para os defensores de que um relato desportivo não deve ser considerado um género jornalístico, o problema surge quando é necessário conjugar todas as características atrás referidas num só relato. David Borges, antigo jornalista da Sic Notícias afirma que os comentadores deixam-se levar pelas emoções do espectáculo. Os jogos da selecção são exemplos flagrantes. Quando a “equipa das quinas” marca é a explosão de alegria, quer no estádio quer do próprio narrador do jogo. O sentido da palavra “neutralidade” neste contexto é então totalmente deturpado, já que o narrador demonstra claramente tomar partido de uma das partes. Além disto, estas situações podem levar a uma situação de criação de um sentimento nacionalista bastante forte, que quando levado ao exagero pode trazer consequência nefastas.
Esta visão é acompanhada por João Nuno Coelho, que chega a afirmar que este nacionalismo é por vezes considerado uma "obrigação moral", tal como nos disse Paulo Pedrosa (Sporttv), aquando da sua passagem pela Escola Superior de Educação de Portalegre. Perfeitamente alinhado no discurso de David Borges, João Nuno Coelho acredita que este sentimento pode contribuir para a construção de uma identidade política, capaz de deitar para segundo plano um qualquer problema grave. Podemos exemplificar esta ideia com um caso concreto que aconteceu na realidade. Aquando da realização do Euro 2004 em Portugal, Durão Barroso tinha em mãos uma proposta para se tornar presidente da União Europeia, cargo que chegou a aceitar. Na altura podia-se questionar (com razão) o tema da sucessão de Durão Barroso no cargo de Primeiro-Ministro português. Apesar da complexidade da questão, todo este tema foi abafado pelo decorrer do Europeu de futebol, "agravado" pela excelente campanha que Portugal foi fazendo. Todo este tema se desenvolveu quase sem discussão política ou popular. O resultado foi o que sabemos. Pedro Santana Lopes foi nomeado, por Jorge Sampaio, Primeiro-Ministro, decisão que o mesmo Jorge Sampaio viria a rectificar, convocando eleições antecipadas. Fica bem patente aqui o real poder do futebol na nossa sociedade.
O relato desportivo deve ser dividido em dois grandes tipos: o relato mais distante e o relato mais sensacionalista.
O relato definido como mais distante é caracterizado por uma linguagem mais cuidada e rigorosa, e sobretudo por uma maior sobriedade do narrador. No fundo, o narrador cinge-se a relatar aquilo que realmente se está a passar, tentando o mais possível abstrair-se do meio que o rodeia.
Quanto ao relato mais sensacionalista é caracterizado pela utilização contaste de expressões valorativas (ex: Foi um frango de todo o tamanho!!!!). Um jornalista que faça um relato deste tipo é mais seduzido a mostrar o seu próprio encanto por uma boa jogada ou por uma boa defesa (ex: É uma defesa do outro mundo!!!).
Entrando no tema da linguagem propriamente dito, o jornalismo desportivo comporta em si um tipo de linguagem bastante próprio, que noutros estilos jornalísticos seria impensável assistirmos. Termos como "espectacular", "desconcertante" ou "fantástico" são constantemente usados no jornalismo desportivo, mas seria impensável encontrá-los na avaliação, por parte de um jornalista, a um debate político, por exemplo. Nem no mais sensacionalista dos jornalismos encontramos isto.
Portanto, o jornalismo desportivo acarreta consigo uma linguagem bastante própria, que serve quase como um elemento identificativo do mesmo. Para que este factor seja explorado ao máximo, tendo como objectivo um melhor jornalismo, será importante que os órgãos de comunicação social escolham de forma criteriosa os seus comentadores. A realidade nacional, como nos demonstra David Borges, não é muito satisfatória. Grosso modo, os comentadores são ex-jogadores ou treinadores desempregados. Se estes ganham ao conhecer a modalidade por dentro, pecam na expressão das suas ideias. Um bom comentador deve aliar ao conhecimento da modalidade uma boa comunicação, para que o seu discurso seja facilmente assimilado. O modelo dado por David Borges foi José Mourinho. Conhecedor como ninguém da modalidade, alia a isso uma imagem apelativa, um discurso articulado e coerente, e uma voz bastante apelativa.
Um dos momentos mais importantes da história do desporto nacional foi a participação da selecção nacional de futebol no campeonato do mundo da modalidade, disputado na Alemanha em 2006. Durante esta competição foram superados todos os recordes de audiências televisivas. Segundo a Marktest, as notícias sobre o mundial de futebol ocuparam 40% dos jornais televisivos, tendo sido a SIC a televisão que mais notícias passou sobre o mundial de futebol, com um total 148 notícias, que tiveram uma duração total de 8 horas e 47 minutos, que corresponderam a 43,3% de todas as noticias veiculadas durante a realização do Mundial de futebol.
O futebol sobrepõe-se assim de forma clara às outras modalidades, sendo este mediatismo exacerbado estendido a todo o ano. A focagem a outro tipo de desportos, como o rugby ou o judo, apenas acontece quando estas modalidades estão em alta. Já o futebol, esse vende todo o ano, seja pelos bons como pelos maus motivos. Um interessado pelo futebol sente-se motivado a ver televisão, a ler uma notícia ou a ouvir na rádio uma qualquer notícia relacionada com o seu clube ou com a selecção nacional. Portugal é um país com uma cultura de futebol profundamente enraizada. Desde Eusébio a Cristiano Ronaldo, passando por Luís Figo e Rui Costa. Todas estas são figuras nacionais, rapidamente reconhecidos pela maioria da população portuguesa.
A nível clubístico, assiste-se nos media portugueses a uma estratificação clara em relação ao destaque dado aos diferentes clubes. Os denominados “três grandes” (Futebol Clube do Porto, Sporting Clube de Portugal e Sport Lisboa e Benfica) têm lugar cativo em qualquer noticiário desportivo. Esta é quase uma lei, derivado sobretudo às massas populacionais que estes clubes arrastam consigo. Segundo o livro “Futebol, Identidade e Media na Sociedade em Rede”, de todos aqueles que assumem ter preferência de um determinado clube, 49,9% são adeptos do Benfica. Segue-se o Porto com 23,2% e por último o Sporting com 21,9% de adeptos. Apenas 6% referiram ter uma preferência clubistica diferente.
Em suma, cada vez mais as notícias são consideradas um negócio, ou seja, são feitas para vender. Se o público-alvo tem estas características, os media actuam de forma a “saciar” os desejos desse mesmo público. Como em Portugal o desporto rei é o futebol, aposta-se mais nesta modalidade em detrimento das demais. De futebol toda a gente fala, todos têm opinião. Esta foi pelo menos a ideia transmitida por Paulo Pedrosa, jornalista da Sporttv, aquando da sua palestra sobre jornalismo desportivo, na Escola Superior de Educação de Portalegre.
Existe neutralidade no discurso desportivo?
A questão é antiga, gera em seu redor inúmeras discussões e não é exclusiva do jornalismo desportivo. É importante primeiro definir se o relato desportivo é (ou não) um género jornalístico, bem como definir as suas especificidades. A verdade é que aqui existe uma divergência notória de opiniões. Se há quem defenda que sim pode ser considerado um género jornalístico, há também quem inequivocamente diga que não. É então soberano saber os porquês desta divergência.
Do lado dos defensores de que o relato desportivo é um género desportivo temos Luís Sobral, director de desporto da TVI. Este afirma, sem rodeios, que para além de o relato desportivo ser um género jornalístico, este é também um dos mais complexos existentes. Tudo porque em "tempo real" o jornalista é obrigado a executar um exercício complexo de relatar o que acontece, de forma clara e sem se deixar levar pelas emoções que o próprio jogo propicia. Em suma não é permitida ao jornalista qualquer tipo de falha, de forma a não ser criticado por quem assiste à transmissão do seu relato. Segundo Luís Sobral, o jornalista deve ainda ser livre de criticar e de fazer valer a sua independência perante os factos observados.
Paulo Garcia, jornalista da SIC, partilha da opinião de Luís Sobral. O jornalista defende mesmo que deve existir uma ligação por parte do jornalista entre o rigor jornalístico e o espectáculo em si, de forma a transmitir ao público as emoções sentidas no próprio local da realização da prova/jogo. O narrador deve então durante o relato transmitir e “fazer sentir” aquilo que se está a passar, fazendo-o sempre com "um sorriso nos lábios".
Existem porém opiniões negativas em relação ao tema da discussão. Para os defensores de que um relato desportivo não deve ser considerado um género jornalístico, o problema surge quando é necessário conjugar todas as características atrás referidas num só relato. David Borges, antigo jornalista da Sic Notícias afirma que os comentadores deixam-se levar pelas emoções do espectáculo. Os jogos da selecção são exemplos flagrantes. Quando a “equipa das quinas” marca é a explosão de alegria, quer no estádio quer do próprio narrador do jogo. O sentido da palavra “neutralidade” neste contexto é então totalmente deturpado, já que o narrador demonstra claramente tomar partido de uma das partes. Além disto, estas situações podem levar a uma situação de criação de um sentimento nacionalista bastante forte, que quando levado ao exagero pode trazer consequência nefastas.
Esta visão é acompanhada por João Nuno Coelho, que chega a afirmar que este nacionalismo é por vezes considerado uma "obrigação moral", tal como nos disse Paulo Pedrosa (Sporttv), aquando da sua passagem pela Escola Superior de Educação de Portalegre. Perfeitamente alinhado no discurso de David Borges, João Nuno Coelho acredita que este sentimento pode contribuir para a construção de uma identidade política, capaz de deitar para segundo plano um qualquer problema grave. Podemos exemplificar esta ideia com um caso concreto que aconteceu na realidade. Aquando da realização do Euro 2004 em Portugal, Durão Barroso tinha em mãos uma proposta para se tornar presidente da União Europeia, cargo que chegou a aceitar. Na altura podia-se questionar (com razão) o tema da sucessão de Durão Barroso no cargo de Primeiro-Ministro português. Apesar da complexidade da questão, todo este tema foi abafado pelo decorrer do Europeu de futebol, "agravado" pela excelente campanha que Portugal foi fazendo. Todo este tema se desenvolveu quase sem discussão política ou popular. O resultado foi o que sabemos. Pedro Santana Lopes foi nomeado, por Jorge Sampaio, Primeiro-Ministro, decisão que o mesmo Jorge Sampaio viria a rectificar, convocando eleições antecipadas. Fica bem patente aqui o real poder do futebol na nossa sociedade.
O relato desportivo deve ser dividido em dois grandes tipos: o relato mais distante e o relato mais sensacionalista.
O relato definido como mais distante é caracterizado por uma linguagem mais cuidada e rigorosa, e sobretudo por uma maior sobriedade do narrador. No fundo, o narrador cinge-se a relatar aquilo que realmente se está a passar, tentando o mais possível abstrair-se do meio que o rodeia.
Quanto ao relato mais sensacionalista é caracterizado pela utilização contaste de expressões valorativas (ex: Foi um frango de todo o tamanho!!!!). Um jornalista que faça um relato deste tipo é mais seduzido a mostrar o seu próprio encanto por uma boa jogada ou por uma boa defesa (ex: É uma defesa do outro mundo!!!).
Entrando no tema da linguagem propriamente dito, o jornalismo desportivo comporta em si um tipo de linguagem bastante próprio, que noutros estilos jornalísticos seria impensável assistirmos. Termos como "espectacular", "desconcertante" ou "fantástico" são constantemente usados no jornalismo desportivo, mas seria impensável encontrá-los na avaliação, por parte de um jornalista, a um debate político, por exemplo. Nem no mais sensacionalista dos jornalismos encontramos isto.
Portanto, o jornalismo desportivo acarreta consigo uma linguagem bastante própria, que serve quase como um elemento identificativo do mesmo. Para que este factor seja explorado ao máximo, tendo como objectivo um melhor jornalismo, será importante que os órgãos de comunicação social escolham de forma criteriosa os seus comentadores. A realidade nacional, como nos demonstra David Borges, não é muito satisfatória. Grosso modo, os comentadores são ex-jogadores ou treinadores desempregados. Se estes ganham ao conhecer a modalidade por dentro, pecam na expressão das suas ideias. Um bom comentador deve aliar ao conhecimento da modalidade uma boa comunicação, para que o seu discurso seja facilmente assimilado. O modelo dado por David Borges foi José Mourinho. Conhecedor como ninguém da modalidade, alia a isso uma imagem apelativa, um discurso articulado e coerente, e uma voz bastante apelativa.
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