Um 4-3-3 muito dinâmico

Em Portugal há uma equipa que de algumas épocas para cá vem dominando o seu campeonato. O seu nome é Futebol Clube do Porto. Clube de campeões, a equipa da cidade do Porto vai-se regenerando sucessivamente a todos os níveis: jogadores, treinadores ou dirigentes.
Hoje, a equipa da invicta é comandada por Jesualdo Ferreira. Natural de Mirandela, o treinador português implementou no Porto o 4-3-3 que muitos bons resultados lhe tinha dado em Braga.
Este figurino táctico veio substituir o 3-3-4 de Adriaanse que deu bons resultados internos à equipa portuense. A fase de transição foi rápida e bem conseguída, mostrando a equipa um nível de assimilação dos princípios de jogo bastante elevado.
Costuma-se dizer que o 4-3-3 é o sistema que transmite um maior equilíbrio à equipa, mas que em contrapartida é um sistema fácil de anular pelo adversário, visto as posições dos jogadores em campo serem facilmente identificáveis pelos seus opositores. O que faz então com que o 4-3-3 do Porto tenha um nível de sucesso bastante elevado? A resposta é "Dinâmica".
A dinâmica com que os jogadores do Porto interpretam o "seu" 4-3-3 leva a que as equipas adversárias tenham dificuldade em parar os jogadores azuis e brancos.
Começando na baliza, Hélton é um guarda-redes com um bom jogo de pés e mãos, aliado também a uma razoável capacidade técnica. Isto faz com que o guardião do Porto jogue como um libero quando a equipa tem a bola, libertando assim os laterais (principalmente Bosingwa) para ocuparem uma posição mais ofensiva no terreno. Como diz Luís Freitas Lobo no seu livro "Planeta do Futebol", o guarda-redes hoje não pode ser considerado um elemento isolado do resto da equipa. É ele que interpreta a ultima fase do processo defensivo de uma equipa, e a primeira fase ofensiva da mesma.
A defesa é composta pelo "veloz" Bosingwa, o "patrão" Pedro Emanuel, o "guerreiro" Bruno Alves e o "simplista" Fucile. Destes destaca-se Bosingwa. O lateral direito tem uma capacidade tremenda de ler o jogo na perfeição, reconhecendo com facilidade os momentos quando deve atacar ou defender. A qualidade dos seus cruzamentos tem vindo a melhor substancialmente, bem como o sentido colectivo do seu jogo. Pedro Emanuel veio trazer tranquilidade e liderança à sua defesa, sendo acompanhado por Bruno Alves, um autentico guerreiro dentro de campo. Fucile, sendo uma adaptação, tem uma propensão ofensiva bastante diminuta, sendo que a posição de Quaresma em campo faça com que o uruguaio mantenha uma atitude mais defensiva para com o jogo, como irei explicar mais à frente.
No meio-campo, destaque para o "pêndulo" Paulo Assunção, sendo apoiado por "El Comandante" Lucho González e o "operário" Raul Meireles. Paulo Assunção confere estabilidade ao onze portista. É ele que coordena os movimentos de meio-campo da equipa a nível defensivo, e a sua capacidade táctica acima da média possibilita a Lucho e Meireles terem uma propensão ofensiva bastante significativa. Lucho González transmite qualidade ao jogo portista. Ao nível do passe, do remate e da visão de jogo. É ele que pauta as missões ofensivas da equipa portista, pertencendo-lhe a primeira fase de construção de jogo ofensivo portista. Mais descaído pela esquerda surge Raul Meireles. No meu entender é nele que reside todo o equilíbrio da equipa portista. Raul Meireles é um recuperador de bolas incansável, que alia a isso um poder de remate assinalável. A sua posição em campo é estratégica, muito bem "desenhada" pelo professor Jesualdo. Na esquerda, e com a ajuda de Fucile, Raul Meireles "liberta" Quaresma das suas funções defensivas, deixando assim o ciganito brilhar com os seus malabarismos. Não são raras as vezes que vemos Quaresma a perder uma bola e logo de seguida Meireles cair em cima do adversário que roubou essa bola. É um jogador bastante importante para o "onze" do Porto. A sua ausência da equipa pode desiquilibra-la e assim tornar o seu jogo ineficaz.
Na frente de ataque surge uma tripla fantástica: Quaresma, Lisandro e Farias. Quaresma é o malabarista da equipa. Não é por acaso que é apelidado de "Harry Potter" pelos adeptos. Dos seus pés sai magia, muitas vezes suficiente para vencer uma partida. Desde os seus cruzamentos de trivela e de letra, ás fintas "diabólicas" capazes de sentar um adversário no chão, à sua capacidade de remate. É de facto um jogador fora de série, que evoluiu muito com Adriaanse, tendo o holandês conferido ao jogo do extremo um maior sentido colectivo. Lisandro é um guerreiro em campo. Incansável, "Licha" não descansa em campo, pressionando até à exaustão os adversários, conseguindo com isso recuperar muitas bolas por jogo. Alia a isso, esta época, uma capacidade finalizadora de assinalar, sendo por esta altura o melhor marcador da campeonato. A chamada à selecção não deve demorar. Já Ernesto Farias é um finalizador. Sendo o segundo melhor marcador argentino no activo (só Palermo tem mais golos que ele), "El Tecla" vem demonstrando nos últimos jogos a sua veia goleadora. As suas trocas posicionais com Lisandro conferem à equipa uma dinâmica ofensiva muito interessante. Ora caindo na direita, ora aparecendo na cara do golo, Farias vem impondo progressivamente o "seu futebol" dentro da estrutura azul e branca. Aproveitou da melhor forma a ausência de Tarik, que foi representar Marrocos à CAN.
O futuro próximo desta equipa afigura-se risonho. O título nacional está bem encaminhado, a Taça de Portugal ainda é objectivo e há também o sonho da Liga dos Campeões. As opções de banco da equipa são de qualidade, como é o caso dos internacionais Stepanov, Cech e Tarik, e ainda de Adriano, Bolatti, Nuno e Kaz.
Jesualdo Ferreira tem à sua disposição um plantel equilibrado e de qualidade. É este equilíbrio que faz com que o Porto não tenha as "recaídas" da época passada, e é este equilíbrio que pode fazer do Futebol Clube do Porto uma enorme surpresa a nível europeu. A isto só o futuro nos poderá responder.

Comments

3 Responses to "Um 4-3-3 muito dinâmico"

Anónimo disse... 10 de fevereiro de 2008 às 03:41

Fantástica análise, equilibrada e rigorosa. Mas peca no fim , no banco porque não concordo que aquele o melhor banco. Neste momento jogadores em quem confio no banco são: Nuno, Stepanov (mas tem que aprender tanto!), Kaz, Helder Barbosa (Há que dar sempre o beneficio da dúvida aos putos) e tem agora o tarik... De resto não creio que o Porto tenha banco por aí além, mas claro no campeonato português serve e muito bem como se tem visto, mas agora imagina que um jogador importante do 11 titular lesiona-se, Raul Meireles ou o Paulo Assunção?! Na champions isso será bem gravoso, pois por isso temos que concordar que o Porto tem tido sorte no que toca a lesões. (Sorte e confio também num bom trabalho ao nível de treino fisico e ao nível médico)

Abraço

André Luz disse... 6 de março de 2008 às 08:40

Bom comentário Rui! So tenho mesmo que discordar do que falas do banco do porto mas isso sao opiniões. Mas sem duvida que o porto tem presentemente a melhor equipa de portugal (não o melhor plantel) e por isso passeia pelo nosso campeonato nacional.
Continua a postar porque tem valido bem a pena!
abraço

filipe disse... 4 de abril de 2008 às 18:53

"Costuma-se dizer que o 4-3-3 é o sistema que transmite um maior equilíbrio à equipa, mas que em contrapartida é um sistema fácil de anular pelo adversário, visto as posições dos jogadores em campo serem facilmente identificáveis pelos seus opositores"

De facto há algumas caracterizações dos sistemas com análises pré concebidas. Frequentemente ouve-se e lê-se que o 4-3-3 é o sistema que mais racionalmente dispoe os jogadores sobre o terreno. Esta afirmação é tão limitada como discutível. Limitada porque supõe aquilo que os sistemas tácticos não são - estáticos (dou um exemplo, se se desenhar o 4-3-3 do porto num papel fica-se com um buraco no espaço entre linhas, atrás do ponta de lança. Esse não é um problema do Porto porque o seu modelo promove mobilidade ao ponto de serem vários os jogadores que aparecem nessa zona). Discutível porque há treinadores de outras escolas que costumam afirmar que outros sistemas são mais racionais na disposição dos jogadores (por exemplo, Wenger afirma o mesmo do 4-4-2 clássico). Ou seja não é uma verdade absoluta como às vezes se ouve mas um visão em função de uma escola de futebol.

Isto não é, obviamente, uma critica ao texto, apenas um "à parte".

Abraço

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